22 setembro 2013
A Diocese de Crato encerrou -- neste sábado, 21 de setembro -- a fase diocesana do Processo de Beatificação da menina-mártir, Benigna Cardoso da Silva. Abaixo a descrição da morte da nova Serva de Deus,
como constou na documentação que será entregue na próxima 3ª feira,dia
24, à Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, em Roma, por
intermédio do postulador diocesano, monsenhor Vitailiano Mattioli.
"Ela era ainda uma criança, com cerca de doze anos, quando começou a
ser assediada por um menino, Raul Alves de Oliveira, provavelmente dois
anos mais velho do que ela. Raul morava próximo à residência da menina.
Nas pesquisas feitas pelo historiador Sandro Cidrão consta:
“A menina Benigna estava cursando o primário, com então 12 anos de
idade, quando começou a ser assediada por um jovem: Raul Alves de
Oliveira. Ele chegava a deixar bilhetes em seus cadernos e se insinuava
para ela, mas esta nunca lhe deu atenção, nem alimentou a expectativa de
namoro pretendido por Raul.
(Benigna) Chegou a falar (sobre isto) com as irmãs que a criavam, “madrinha Ozinha” e “Bezinha”.
Donde se conclui que os reiterados pedidos de namoro – feitos por
Raul a Benigna – foram seguidamente rejeitados pela menina. É tradição
que esses assédios foram levados ao conhecimento do Pároco de Santana do
Cariri, Padre Cristiano Coelho, que chegou a sugerir a Benigna viesse
morar na cidade, onde, além de ficar livre das insinuações sexuais de
Raul, ainda teria oportunidade de dar continuidade aos seus estudos, o
que não era possível no povoado de Inhumas, onde a menina residia.
Por alguma razão desconhecida, não se efetivou a transferência de
Benigna para a cidade. O fato é que, ao completar 13 anos de idade, ela
continuava morando no Sítio Oiti. Enquanto isso, Raul não desistia do
seu intento de manter um relacionamento amoroso com a jovem, apesar das
sucessivas recusas desta.
Voltamos às informações do historiador Raimundo Sandro Cidrão:
“Certa vez, Benigna, que sempre gostava de ajudar nos afazeres
domésticos, ao chegar da escola, à tardinha, numa sexta-feira, 24 de
outubro de 1941, desceu até o riacho, próximo da sua casa, onde existia
uma cacimba, para pegar água num pequeno pote, como de costume fazia.
Raul, que ficara à espreita, por trás de uns arbustos, ao vê-la com o
pote, aproximou-se e fez-lhe propostas amorosas, recusadas
categoricamente por Benigna. Enlouquecido, levado por uma força
demoníaca, Raul sacou um facão e ameaçou mata-la, caso não aceitasse (o
relacionamento sexual). Benigna, de corpo franzino e aparência anêmica,
movida por uma força sobre-humana, defendeu sua castidade, a todo o
custo, da monstruosidade de seu algoz. Pediu, implorou em nome de Deus,
mas, num gesto de fúria, Raul cortou-lhe os três dedos da mão. Ainda
assim ela se debateu, e ele então lhe atingiu a testa e os rins (com o
facão). O golpe fatal, no pescoço da menina, quase decepou a cabeça
desta. Diante da tragédia, Raul fugiu, deixando o sangue virgem da
menina escorrendo pelas pedras.
Já era tarde, estava anoitecendo, e Benigna não voltava com a água. Dona
Rosa, que enxergava pouco, pediu ao irmão de Benigna, Cireneu, que
fosse ver o que havia acontecido. Minutos depois, ele chegou com o corpo
de Benigna, já sem vida. A consternação e a comoção foi geral. O crime
abalou todo o município (de Santana do Cariri) e adjacências, pelo
requinte de crueldade com que foi praticado.
Benigna foi sepultada, na manhã do sábado, dia 25, por volta das 10
horas, no Cemitério Público São Miguel, em Santana do Cariri, no jazigo
da família Sisnando Leite.
Desde aquela tarde fatídica, as pessoas começaram a invocar a alma de
Benigna em promessas e rogativas. Muitas graças foram alcançadas, e até
milagres aconteceram. A visitação ao local de seu martírio tornou-se
constante, haja vista o grande número de ex-votos lá depositados pelos
fiéis” .
Sem se dar conta, Benigna fez parte daqueles “pequeninos”, aos quais o
Pai fez conhecer os segredos dos Reinos do céu. Ela vivia em paz com os
membros da sua comunidade. Sentia-se feliz todas as vezes que tinha
oportunidade de ir à igreja. Vivia de forma séria, compenetrada e
responsável, a ponto de esse seu exemplar comportamento ter chamado à
atenção do Pároco da cidade, Padre Cristiano Coelho. É bom lembrar que o
sítio de residência de Benigna fica distante mais de dois quilômetros
da igreja-matriz. E as vias de acesso do sítio à cidade, àquela época,
eram precárias, não existindo meios de transporte entre as duas
localidades, a não ser por alimárias, transporte utilizado por quem
tinha esse recurso. Os menos afortunados faziam o percurso a pé, em
meio à poeira (no verão) ou no lamaçal (na temporada das chuvas).
Aparentemente frágil, mas dispondo de grande força interior, advinda
do seu coração puro, Benigna soube resistir aos apelos e à força física
de Raul, porque aprendera – quando se preparava para a Primeira Comunhão
– que por pensamentos, palavras e ações, o cristão tem a obrigação de
ser puro para ganhar o céu. Foi com o coração voltado para Deus e a
preocupação de não contrariar Jesus – que ela recebia em comunhão, com
tanta dignidade, nas primeiras sextas-feiras de cada mês – que Benigna
não teve medo de enfrentar os golpes do facão utilizado por Raul. Com a
ação tresloucada do assassino, teve seu corpo virgem despedaçado.
Foi para defender sua pureza que ela preferiu morrer traspassada
pelos golpes que lhe atingiram a mão, a testa; o pescoço e as costas. A
sua castidade, no entanto, foi preservada, e pura ela se apresentou no
céu.
“Fato é que não demorou muito para a veneração em torno da memória da
jovem adolescente começar porque, segundo o que corre de boca em boca,
desde o dia de sua morte, os moradores da comunidade e, depois, os do
município de Santana do Cariri começaram a alcançar graças, ao recorrer
à menina martirizada”.
“Uma capelinha foi construída pela comunidade, a 200 metros de onde a
adolescente foi assassinada, no Sítio Oiti, no Distrito de Inhumas (...)
A construção foi feita em pedra, com um espaço dedicado aos ex-votos
dos devotos de Benigna, várias fotografias de pessoas que fizeram
promessas à mártir Benigna, além de um retrato falado da jovem mártir.
Também está lá o pote que ela carregava na hora que foi assassinada,
envolto numa redoma de vidro, um vestido pertencente a ela e esculturas
que retratam o momento em que ela foi morta por Raul Alves”.
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