Santana do Cariri. Uma
multidão se reuniu na tarde de ontem, dia 24, neste município do cariri
cearense, para celebrar o encerramento da 13ª edição da Romaria de
Benigna. Segundo estimativa da Matriz de Nossa Senhora Santana, 20 mil
devotos participaram da procissão que este ano trouxe o tema "Com
Benigna, rumo ao centenário paroquial, celebremos as misericórdias do
Senhor".
Conforme explica um dos organizadores do evento, Ypsilon Félix, o dia da
abertura dos festejos, 15 de outubro, é alusivo ao nascimento de
Benigna e o encerramento relembra a data de sua morte, que completa 75
anos. "Como providência divina, entre a data de seu nascimento e a data
de sua morte há um intervalo de nove dias, justamente o tempo para
celebração de novenas", pontuou.
Os fiéis saíram em caminhada do bairro Inhumas, onde se encontra o
santuário erguido em louvor à menina Benigna Cardoso, morta de forma
brutal aos 13 anos de idade, em direção à matriz do município, no
Centro. Após a procissão, houve missa solene, com a despedida oficial do
Bispo Diocesano Don Fernando. O sacerdote foi responsável pela abertura
do processo de beatificação. A celebração teve ainda a presença do
bispo Coadjutor Dom Gilberto Pastana.
Em sua despedida, Don Fernando demonstrou felicidade ao ressaltar que a
"Romaria de Benigna é um ato de amor e devoção que veio do povo para a
Igreja. Essa manifestação não foi imposta pelas autoridades
eclesiásticas, mas como uma prova de reconhecimento e memória do
martírio de Benigna, uma jovem que renunciou o pecado e acolheu a
vontade de Deus".
Padre Paulo Lemos Pereira, responsável pela paróquia do município,
lembrou que apesar da Romaria em louvor à jovem acontecer somente há 13
anos, "Benigna já é santa na consciência do povo de Santana, e louvada
muito antes do início das romarias. São inúmeras as graças alcançadas
por sua intercessão", acrescenta o sacerdote, razão pela qual, segundo
ele, "a Romaria tem crescido ano após ano".
Diante do crescente número de fiéis, obras estruturantes têm sido
realizadas no percurso entre o santuário e a matriz. A Avenida Monsenhor
Mattiolli, agora denominada "Corredor da Fé", está sendo reformada
desde o ano passado. Ypsilon analisa que, ao fim da obra, "não somente
os romeiros serão beneficiados com uma estrada melhor, mas também os
comerciantes, diante do aumento no fluxo de católicos". As obras estão
com 50% de execução.
Concluída
A estrada em paralelepípedo com 7 metros de largura terá extensão de 2,5
km, ligando a sede do município ao bairro de Inhumas, local onde
Benigna foi assassinada. A primeira parte da obra, já concluída,
contempla 1,5 metros de calçadas, com valas e calçamentos. Já na segunda
fase, a previsão é que sejam inseridas ciclovias, urbanização com
iluminação e boxes para atendimentos aos fiéis.
Ypsilon detalha que o objetivo é criar, ao longo do percurso, estações
da Via Sacra, como na Rua do Horto, em Juazeiro do Norte, em direção ao
local onde está localizado o monumento de 27 metros erguido em homenagem
ao Padre Cícero, que anualmente recebe 2,5 milhões de fiéis. A 200
metros do túmulo onde Benigna foi sepultada, dezenas de fiéis se
espremem pacientemente em busca da água retirada da cacimba onde a jovem
passou antes de ser assassinada. Ypsilon conta que os fiéis chegam ao
poço, tiram a água, se molham, bebem e até levam para casa por
acreditarem que ela é abençoada por Benigna, como é o caso da diarista
Lucinete Oliveira da Silva Brito, de 36 anos.
Segundo ela, a gravidez do seu terceiro filho foi de risco e "havia
grandes possibilidades de a filha nascer morta ou com alguma grave
doença. Prometi que se minha filha nascesse com saúde, eu a chamaria de
Benigna e todos os anos traria ela aqui no santuário". A agricultora
Maria Aparecida, 59, também acredita na santidade de Benigna. "Meu filho
tinha feridas na perna e não conseguia sarar. Então orei para Benigna
pedindo que ela o curasse e ela atendeu, após ele beber e tomar banho
com a água desta cacimba".
Beatificação
Em 2011, a diocese do Crato iniciou os trabalhos para pedir ao Vaticano a
beatificação da jovem "mártir". A beatificação, conforme explica o
sacerdote Lemos, é o primeiro passo para a canonização, processo pelo
qual a Igreja reconhece oficialmente a fama e o testemunho de santidade
de alguém que viveu e morreu heroicamente, marcado pelas virtudes
cristãs. Com a abertura do processo, Benigna se tornou 'Serva de Deus' e
os seus restos mortais foram transladados do cemitério da cidade para a
Matriz de Nossa Senhora Sant'Ana, no Centro.
Ainda segundo o padre, o processo de beatificação está em andamento na
cúpula da Igreja em Roma. Além da extensa documentação que a equipe
diocesana já entregou na Sede da Igreja Católica, o Vaticano solicitou,
este ano, depoimentos de pessoas que viveram nas décadas de 40 a 80,
relatando graças alcançadas e sobre a consciência popular do martírio de
Benigna.
Fique por dentro
Heroína perdeu a vida tragicamente
Benigna Cardoso da Silva nasceu em 15 de outubro de 1928, na localidade
de Sítio Oitis, Distrito de Inhumas a 2 km da sede de Santana do Cariri.
Em 1941, aos 13 anos perdeu a vida de forma trágica. Benigna foi morta a
golpes de facão por um homem que a assediou e tendo ela se recusado a
entregar-se foi brutalmente assassinada. Pelo ato a menina passou a ser
considerada santa pela população local depois de sua morte, por
considerarem o seu gesto de amor e coragem apesar da pouca idade,
tornando-se "Heroína da Castidade".
Fonte: André Costa - Diário do Nordeste.
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