A santidade da menina Benigna -- por Armando Lopes Rafael
Analisando a fama de santidade de Benigna Cardoso da Silva, o que de
início mais chama a atenção, sobre este fato, é a perseverança da
população de Santana do Cariri em manter viva essa aura de virtude que
cerca a história da Heroína da Castidade.
Benigna foi martirizada há 72 anos – em 1941 – e de lá para cá sua fama
de santidade só fez crescer. Até que o próprio Bispo de Crato, Dom
Fernando Panico, ouvindo o clamor do seu povo, resolveu nomear uma
comissão para estudar as virtudes desta menina.
Recorde-se
que quando Benigna foi assassinada, o pároco de Santana do Cariri,
Padre Cristiano Coelho, procurou o Livro de Batismos nº B-08, e, na
página 36, onde estava escrito o Registro de nº 470 – referente ao
batismo de Benigna – e anotou, ao lado, Ipsis litteris: “Morreu
martirizada, às 4 horas da tarde, no dia 24 de outubro de 1941, no
Sítio Oiti. Heroína da Castidade, que sua santa alma converta a
freguesia e sirva de proteção às crianças e às famílias da Paróquia. São
os votos que faço à nossa santinha. Pe. Cristiano Coelho”.
Vox Populi, Vox Dei. A voz do povo é a voz de Deus!
O que é a santidade?
Em
05 de julho de 2007, o Papa Bento XVI definiu, de uma maneira muito
feliz, o que é a santidade: “Ser santo significa parecer-se com Jesus
Cristo em tudo: pensamentos, sentimentos, palavras e ações. O traço mais
característico da santidade é a caridade (amar a Deus sobre todas as
coisas e ao próximo como a si mesmo), que dá forma a todas as virtudes:
humildade, justiça, laboriosidade, castidade, obediência, alegria... É
uma meta a que todos os batizados são chamados, e que só é alcançada no
Céu, depois de lutar a vida inteira, contando com a ajuda de Deus”.
Uma vida vivida em meio à pobreza
Considere-se
ademais, que além de piedosa, humilde e dotada de uma vida pura,
Benigna experimentou a pobreza durante toda a sua existência terrena.
Pobríssima, e de origem humilde, era a família de Benigna. Seu pai, José
Cardoso da Silva, ganhava o sustento como trabalhador rural,
ocupando-se no Sítio Oiti dos Cireneus, imóvel pertencente ao Sr.
Cireneu Sisnando Leite. A mãe da menina, Tereza Maria da Silva,
executava as tarefas domésticas da casa e cuidava dos quatro filhos
menores. Com o falecimento dos seus pais, Benigna e seus irmãos foram
adotados pelas irmãs Rosa e Honorina Sisnando Leite, estas filhas do
proprietário do Sítio Oiti dos Cireneus, àquela altura já falecido. A
pequena propriedade foi herdada por essas duas senhoras, as quais –
apesar da herança recebida – também viviam modestamente, como era o
padrão econômico-financeiro-social dos pequenos proprietários rurais no
município de Santana do Cariri, nas primeiras décadas do século XX.
Numa coisa, as famílias do município de Santana do Cariri – naquele
recuado tempo – se igualavam, tanto as paupérrimas, como as que
dispunham do mínimo necessário à subsistência. As famílias respiravam
um ambiente de piedade cristã, vivido de maneira simples, é verdade, mas
voltado para o amor a Deus, à devoção a Nossa Senhora, à Senhora
Santana – padroeira da cidade – a São José e ao Anjo da Guarda. Os
filhos tinham o costume de pedir a bênção aos pais, tanto ao acordarem
como à hora de se recolherem para dormir. As famílias rezavam antes das
refeições. Ao entardecer era comum pais e filhos rezarem juntos o terço
do Rosário. Os tempos litúrgicos – Advento, Quaresma, Páscoa – eram
celebrados com respeito por todos.
Outra forte tradição religiosa no município de Santana do Cariri – e,
por extensão, em todo o Sul do Estado do Ceará – era (e ainda permanece
nos dias atuais) o costume de as famílias realizarem sua consagração ao
Sagrado Coração de Jesus. A primeira solenidade dessa consagração
ocorria quando a família entronizava – ou seja, colocava “no trono” – no
lugar de honra de suas residenciais, dois quadros com gravuras do
Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria. Isso ocorria
num ato religioso, independente da presença de um sacerdote, para
simbolizar o compromisso de a família viver o Evangelho e seguir a Deus
pela obediência às suas leis na fé, esperança e caridade.
Anualmente,
no aniversário da “entronização”, as familiares faziam a “renovação”
desse compromisso. A tradicional Renovação da Consagração da família ao
Sagrado Coração de Jesus, tão comum naquele tempo (e que persiste nos
dias atuais) em vasta parte do Sul do Estado do Ceará.
Na sua curta existência a menina Benigna participou de muitas dessas
“renovações”, pois a quase totalidade das famílias da sua comunidade
conservavam essa bonita tradição católica.
Estas algumas considerações sobre a santidade de Benigna. Voltaremos ainda a este assunto.
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